Às vésperas de o Supremo Tribunal Federal (STF) decidir sobre a abertura de ação penal contra os 40 acusados de participar do mensalão, o Ministério Público Federal ainda tenta identificar beneficiários da suposta mesada paga a aliados do governo Lula. A pedido do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, a Polícia Federal apura se saques realizados nas contas das empresas de Marcos Valério, e ainda não rastreados, foram repassados a assessores dos deputados Eunício Oliveira (PMDB-CE), Benedito de Lira (PP-AL), João Paulo Cunha (PT-SP) e dos ex-parlamentares Luiz Piauhylino (PTB-PE), Nilton Baiano (PP-ES), João Mendes (PSB-RJ) e Wanderval Santos (PR-SP).
A apuração tem como base lista enviada à Procuradoria pelo presidente da CPI dos Correios, Delcídio Amaral (PT-MS). O material só ficou pronto depois de encerrada a comissão, em abril de 2006, resultado do cruzamento de nomes de servidores da Câmara com os de pessoas que estiveram na agência do Banco Rural, em Brasília, nos dias em que foram sacados R$ 7,3 milhões das contas de empresas ligadas a Marcos Valério, em 97 operações realizadas entre janeiro de 2003 e dezembro de 2004.
Os técnicos da CPI relacionaram 24 nomes de possíveis assessores parlamentares, e conseguiram associar pelo menos seis deles a deputados. Agora, mais de um ano depois de encerrado o trabalho da comissão, Antonio Fernando de Souza resolveu pedir para a PF descobrir se o dinheiro sacado do Rural foi entregue a esses assessores. O ministro Joaquim Barbosa, relator do caso no STF, autorizou a apuração dentro do inquérito nº 2474, desmembramento do principal (nº 2245).
As maiores quantidades de saques, de acordo com a lista da CPI, ocorreram em datas nas quais uma ex-funcionária de Eunício Oliveira esteve no Rural. A comissão identificou que a funcionária Cláudia Luiza de Morais foi 22 vezes à agência bancária em dias nos quais foram sacados R$ 3,5 milhões das contas das empresas ligadas a Marcos Valério. Os saques variavam entre R$ 10 mil e R$ 350 mil. No mesmo período, Eunício foi líder do PMDB na Câmara e ministro das Comunicações.
PMDB
A CPI também identificou a ida, ao Rural, de Antonio de Souza Filho, associado pela comissão ao PMDB. Souza foi à agência pelo menos sete vezes, segundo o levantamento, em datas que registraram saques nas contas das empresas de Valério no valor de R$ 649 mil. A lista da CPI trouxe ainda o nome de Pedro Mendes de Souza, lotado no gabinete de Benedito de Lira (PP-AL). A comissão identificou a ida dele ao Banco Rural em outubro de 2004, num dia em que foram sacados R$ 17,1 mil.
Outra a aparecer na análise feita pela CPI foi Silvana Paz Japiassu, lotada no gabinete de João Paulo Cunha (PT-SP). A lista mostra que, no dia em que ela esteve no Rural, foi registrado saque de R$ 30 mil na conta de uma das empresas de Valério. A retirada, em abril de 2004, foi feita por Eliane Lopes, da agência SMPB.
Então funcionário da segunda vice-presidência da Câmara, Airon Hamilton Fernandes esteve 29 vezes na agência do Rural, de acordo com o documento, em datas que coincidiram com saques no valor de R$ 2,5 milhões, em operações que variaram de R$ 10 mil a R$ 250 mil. No período, o ex-deputado Luiz Piauhylino, na época do PTB e hoje no PDT, ocupava a segunda vice-presidência. A lista mencionou ainda servidores ligados aos ex-parlamentares Nilton Baiano (PP-ES), João Mendes (PSB-RJ) e Wanderval Santos, do extinto PL de São Paulo, em dias em que foram sacados cerca de R$ 850 mil.
Na maior parte das datas analisadas no documento da CPI, quem compareceu ao Banco Rural foi a gerente financeira da SMPB, Simone Vasconcelos. Ela confessou ter cuidado da entrega dos recursos a representantes de deputados. Em denúncia apresentada ao STF, em março do ano passado, o procurador-geral da República acusou 40 ex-dirigentes do PT de terem montado “uma organização criminosa” para comprar apoio político de partidos da base aliada.
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Deputados negam
Procurado pela reportagem, Eunício Oliveira (PMDB) negou, por meio de um assessor de imprensa, ter recebido recursos do mensalão. O deputado informou que a funcionária Cláudia Luiza Morais, associada a ele pela CPI dos Correios, trabalhou em seu gabinete por seis meses e depois se transferiu, no início de 2004. Quanto a Antonio de Souza Filho, a quem a CPI relacionou ao PMDB, a assessoria de Eunício Oliveira informou que o parlamentar não se recorda de pessoa com esse nome no partido.
Uma funcionária do gabinete de Benedito de Lira (PP-AL), que teve o assessor Pedro Mendes de Souza incluído na lista da CPI, informou que o parlamentar estaria fazendo exames médicos hoje e que não poderia comentar o caso. A assessoria do ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP) informou que ele se recupera de uma cirurgia em casa e que não poderia atender, mas reafirmou que o petista negou na época as suspeitas de que teria recebido dinheiro de Marcos Valério.
Também incluídos na listagem da CPI, os ex-deputados João Mendes (sem partido-RJ), Luiz Piauhylino (PDT-PE), Nilton Baiano (PP-ES) e Wanderval Santos, do extinto PL de São Paulo, não foram localizados pela reportagem, mas todos os quatro já haviam negado participação no esquema. (MR)