Na impossibilidade de se conseguir assar desde logo a grande pizza, articula-se na Câmara o preparo de uma pizza menor, tamanho brotinho, para a próxima semana. Na reunião da Mesa na terça-feira, o quarto-secretário, João Caldas (PL-AL), poderá pedir vistas do processo que envia ao Conselho de Ética os pedidos de cassação dos 13 deputados denunciados de envolvimento com o escândalo do mensalão. As vistas — um prazo para uma análise mais acurada do processo — são de duas sessões. Como há na quarta-feira o feriado de Nossa Senhora Aparecida, os dois dias de vistas seriam quinta e sexta-feiras. O que permitiria, então, mais uma semana de fôlego para os cassáveis.
Concedida as vistas, a Mesa se reuniria novamente na segunda-feira da semana que vem. Remeteria o processo para o Conselho de Ética, que o receberia na terça-feira. Esse passaria a ser o novo prazo fatal, a partir do qual a turma da degola não mais poderia renunciar. Trata-se de uma pizza brotinho, uma vez que ela não mata inteiramente a fome dos que não querem a punição dos envolvidos. Apenas a adia por algum tempo. O pedido de vistas é um direito de qualquer deputado. Não pode ser negado. É concedido automaticamente.
João Caldas não admite que vá se valer da manobra para adiar as cassações. Mas também não nega. “É um direito de qualquer deputado. Eu posso fazer. Ou qualquer outro deputado da Mesa pode fazer”, diz Caldas. O deputado admite, porém, que era a favor de relatórios individuais para cada um dos cassáveis. Que é contrário à forma como os processos acabarão encaminhados. “Aí, nós vamos ter de analisar. Quem achar que precisa de mais tempo, tem o direito de pedir vistas”, conclui.
“Corredor da morte”
A novela para o envio dos processos ao Conselho, considerado o “corredor da morte” pelos cassáveis, já teve vários capítulos. Quando a decisão parecia prestes a sair, em meados de setembro, seis deputados petistas entraram com pedido de liminar no Supremo Tribunal Federal (STF), que interrompeu o processo. O argumento era de que eles não tiveram direito de defesa em instâncias inferiores. A liminar foi concedida no mesmo dia pelo presidente do STF, ministro Nelson Jobim. E, com isso, todos os deputados citados tiveram de ser ouvidos pela Comissão de Sindicância aberta pela Corregedoria da Câmara.
As denúncias contra o então presidente da Casa, Severino Cavalcanti (PP-PE), ajudaram a tumultuar as negociações sobre o envio dos processos ao Conselho. Os petistas ainda ensaiaram uma nova polêmica na Corregedoria. A maior parte dos integrantes da comissão de sindicância defendia um relatório único, sobre os casos dos 13 deputados. Mas os petistas fizeram pressão por relatórios separados. É com base nesse argumento que Caldas poderá pedir vistas, na reunião de terça-feira. E, com isso, dar uma nova sobrevida aos parlamentares sob suspeita. A partir do momento em que o Conselho instaurar os processos por quebra de decoro parlamentar contra esses deputados, o prazo é de 90 dias para que a decisão seja levada ao Plenário da Casa.