Em depoimento prestado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), Rodolpho Veras precisou ouvir a gravação do diálogo entre ele e seu pai, Zuleido Veras, para confirmar a proximidade entre o dono da Gautama e o governador da Bahia, Jaques Wagner (foto) (PT) . Conversas grampeadas pela Polícia Federal, durante a Operação Navalha, indicam que Jaques Wagner teria se encontrado com Zuleido no dia 26 de maio de 2006. Eles tratariam de contratos de obras no município de Camaçari, na Bahia.
Na gravação, Zuleido se refere ao governador como JW. “Eu tinha botado ontem essa reunião com o JW. Mas foi hoje, meio-dia. Tô saindo de lá agora”, disse Zuleido a Rodolpho. De acordo com o diálogo, o prefeito de Camaçari, Luiz Caetano (PT), teria participado da reunião. Questionado sobre a referência a JW, Rodolpho respondeu à ministra: “A referência a JW deve ser a Jaques Wagner, governador da Bahia, pois ele e (Luiz) Caetano são muito amigos e era uma forma do pai, ao mesmo tempo em que oferecia os préstimos da empresa, falar sobre o contrato de Camaçari”.
O contrato, no valor de R$ 11, 5 milhões, foi celebrado entre o Ministério das Cidades e a Prefeitura de Camaçari, no dia 16 de junho de 2006. Os recursos, oriundos da Caixa Econômica Federal (CEF) com uma contrapartida de R$ 1,45 milhões da prefeitura baiana, são destinados à urbanização de assentamentos precários no morro Nova Vitória, dentro do Vale do Rio Camaçari.
Luiz Caetano e Zuleido Veras foram presos durante a Operação Navalha e posteriormente liberados. Zuleido é acusado de liderar um esquema de fraudes em licitações de obras públicas. Luiz Caetano é suspeito de tentar desviar R$ 9,7 milhões, direcionando os recursos, destinados a obras de urbanização em Camaçari, para a construtora, que teria, inclusive, arcado com os custos de parte da documentação para a celebração do convênio. Na casa de Luiz Caetano, em Camaçari, foram encontrados pela Polícia Federal R$142 mil em dinheiro vivo, além de cerca de US$ 3 mil.
O dinheiro do contrato para as obras de urbanização, entretanto, ainda não foi liberado. De acordo com o Ministério das Cidades, a ordem bancária está bloqueada.
Outro lado
Jaques Wagner, por meio de sua assessoria em Brasília, nega que tenha se encontrado com Zuleido Veras no dia 26 de maio de 2006. Nega também que tenha se encontrado com Zuleido ou com Rodolpho Veras em qualquer outra data. No dia 26 de maio de 2006, Wagner já havia deixado o ministério das Relações Institucionais do governo federal. Havia voltado para Salvador, onde preparava sua candidatura ao governo da Bahia.
Até agora, Wagner reconheceu apenas que a única relação entre ele e Zuleido ocorreu de forma indireta. Wagner admitiu ter passeado no dia 26 de novembro de 2006 pela Baía de Todos os Santos, ao lado da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, numa lancha cedida por Zuleido Veras, embora garanta que só tenha sabido disso agora, após as primeiras prisões da Operação Navalha. O publicitário Guilherme Sodré Martins, melhor amigo de Wagner, arrumou a lancha com Zuleido e só teria contado ao governador durante o passeio.
Mas as investigações da PF sugerem que Zuleido e Jaques Wagner podem ter uma relação mais próxima. Em uma das gravações do inquérito da operação, Zuleido liga para o celular do prefeito de Camaçari, que na hora estava numa reunião. Atendido por um assessor, o dono da Gautama diz que quem lhe forneceu o número do prefeito foi Jaques Wagner. Por meio de sua assessoria em Brasília, o governador nega ter repassado o número de Luiz Caetano a Zuleido. Segundo o governador, foi uma bravata de Zuleido para mostrar poder ao prefeito.