O governo quer achar uma forma de identificar e punir os responsáveis por vazamentos de informações e gravações contidas em inquéritos da Polícia Federal. Ontem, o ministro da Justiça, Tarso Genro, reuniu-se com o diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Lacerda, e com o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza. Decidiram buscar soluções técnicas para criar uma espécie de marca de quem manusear os inquéritos e gravações para identificar os responsáveis dos vazamentos. “O Estado tem de armar para preservar o direito à intimidade das pessoas”, diz Tarso Genro.
O ministro nega que o governo pretenda restringir o poder de investigação da Polícia Federal, especialmente o uso de escutas. Mas o fato é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está incomodado com os constantes vazamentos de informações sobre investigações supostamente sigilosas e que atingem integrantes do governo. Lula já havia ficado muito irritado durante a campanha eleitoral do ano passado, quando um delegado da PF passou a jornalistas fotos do dinheiro apreendido com militantes petistas que pretendiam comprar um dossiê contra políticos tucanos. Nas últimas semanas, acumulou outros episódios de desgaste.
O principal foi a revelação de gravações de diálogos de seu irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, acusado pela PF de atuar como lobista. Mas, em conversas reservadas, o presidente disse ter visto intenção política também no vazamento de informações contra dois ministros.
O primeiro foi Silas Rondeau, que teve de renunciar à pasta de Minas e Energia, depois do vazamento de um vídeo que mostrava a chegada de uma diretora da empreiteira Gautama ao conjunto de salas onde fica seu gabinete, supostamente levando uma bolsa com dinheiro para pagamento de propina.
Inquérito
O segundo foi a revelação de que o ministro das Cidades, Márcio Fortes, foi gravado em conversas com pessoas investigadas na Operação Navalha, sobre o pagamento de propinas de empreiteiras a funcionários públicos. Nos dois casos, os ministros não foram indiciados no inquérito e o presidente viu nos vazamentos a intenção de atingi-los politicamente.
Outra coisa que incomoda Lula é a sensação de ser refém dos vazamentos. O governo não controla o fluxo das informações e tem de reagir a cada nova revelação. Na reunião do Conselho Político da última segunda-feira o presidente chegou a pedir que a PF divulgasse todas as informações sobre seu irmão Vavá. Disse considerar melhor isso do que sofrer com novas revelações a cada dia.
O governo está dividido em relação à origem dos vazamentos. Tarso Genro defende a Polícia Federal, que está sob seu comando. “As gravações não são distribuídas pela PF”, disse ontem. “Esses inquéritos ficaram com a polícia durante meses sem nenhum vazamento. Só vieram a público depois que foram distribuídos aos advogados dos investigados”. Mas no Palácio do Planalto, há ministros convencidos de que a fonte dos vazamentos é mesmo a PF, numa estratégia para ganhar pontos com a mídia e fortalecer a instituição.