Os deputados estaduais se calaram, ontem, no plenário da Assembléia Legislativa, sobre os 63 carros de luxo que receberam como presente de final de ano do banco Bradesco. Eles simplesmente fingiram que os veículos Focus sedã, completos, orçados em R$46 mil cada, que deveriam ser utilizados apenas em missões oficiais – embora sejam usados pelos parlamentares e familiares para lazer e viagens pessoais – não existem. Para a população baiana, o presente é imoral, além de ser mais uma prova, assim como a autoconvocação extraordinária, de que os deputados só têm interesse de legislar em causa própria.
Nem a oposição – que enviou, em dezembro de 2004, um requerimento à presidência da Casa solicitando informações sobre a moralidade e legitimidade do presente, mas depois optou por aceitar o “mimo” -, se manifestou em plenário. Em entrevistas à imprensa, alguns oposicionistas disseram que os 63 automóveis, que custaram R$2,8 milhões ao Bradesco, são presentes legítimos e que não afetam a moralidade e a ética pública, ao contrário do que pensa a população baiana, indignada com as mordomias dos deputados.
“O que precisa haver é uma legislação que regulamente a relação entre os setores público e privado e uma fiscalização efetiva sobre a utilização do veículo”, disse a deputada Lídice da Mata, uma das seis representantes do Legislativo baiano que ainda não receberam o Focus, o que deve acontecer ainda em janeiro. Para ela, o presente faz parte da concorrência dos bancos privados pela conta da Assembléia. E é moral e legítimo.
Apenas o deputado Zé Neto (PT) tocou no assunto em pronunciamento no plenário. O petista se tornou um estranho na bancada da minoria porque é acusado de demagogo por devolver os R$19 mil – o equivalente aos dois salários extras -, pela autoconvocação extraordinária. Ano passado, Neto chegou a brigar publicamente com a deputada Moema Gramacho (PT) por causa da sua postura em não aceitar os vencimentos extras.
“Não há nada de errado na Casa oferecer veículos aos parlamentares. Mas eles não precisavam ter sido pagos pelo Bradesco. Isso cria um desgaste desnecessário a todos nós, que já estamos sofrendo as conseqüências de uma autoconvocação extraordinária”, declarou o petista, acrescentando que a própria Assembléia cria mecanismos que servem para desmoralizar a instituição perante a opinião pública. Para ele – que também tem recebido críticas da maioria por condenar os trabalhos extraordinários -, a imagem dos parlamentares para a sociedade nunca foi tão ruim.
Nenhum governista se pronunciou sobre os presentes. Entretanto, todos consideram o “mimo” moral e legítimo, porque fez parte do acordo com o banco para a renovação da conta da Casa – apesar de os funcionários do Legislativo não terem tido nenhum benefício pelo novo contrato de mais cinco anos. Os parlamentares da maioria dizem que são vítimas de perseguição.
Antes, os únicos parlamentares com direito a carros oficiais eram os integrantes da Mesa Diretora e os líderes partidários e de bancadas. Hoje, com o presente do banco, os 63 deputados não precisam utilizar os carros próprios para viajar, ir à praia ou mesmo à compras ou levar os filhos à escola. A manutenção dos veículos é paga pela Assembléia. Os parlamentares podem levar os carros para casa e também não pagam gasolina. Todos têm direito a até 1.800 litros de combustível pagos, também, com dinheiro público.