Um ano e quatro meses depois de enfrentar denúncias de que sua empresa só saiu do campo das idéias registradas em contrato social graças a um empurrão da Telemar, o biólogo Fábio Luís da Silva, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de Marisa Letícia, pode ser chamado de homem bem-sucedido. Ganha salário mensal de R$ 10 mil, fora a divisão de lucros – o que não o torna um sujeito rico, mas é seis vezes o que conseguia há quatro anos prestando consultorias – e é mais do que os R$ 8.885,48 que seu pai recebe na Presidência da República. É sócio de um negócio com faturamento estimado em R$ 30 milhões para 2007 e no qual tem participação avaliada, em valores de mercado, em R$ 500 mil. Em décadas de vida pública, Lula acumulou patrimônio de R$ 839 mil.
Fábio tem 32 anos, mora em um apartamento na zona oeste de São Paulo, costuma se vestir com jeans e camisetas, passa a maior parte de seu tempo às voltas com um universo formado por cinema, bandas de rock ou games, evita badalações e nas últimas semanas andou dando explicações a amigos, por conta da notícia que circula na internet, de que teria comprado uma mansão em um condomínio fechado de São Bernardo do Campo. (‘Se alguém provar que essa casa é minha, pode ficar com ela’, costuma responder ele).
Passou a ser chamado publicamente de ‘Lulinha’ – na verdade um apelido usado entre amigos para seu irmão caçula, Luís Claudio – quando vieram à tona seus negócios com a Telemar. E virou assunto da campanha eleitoral na última semana, quando pela primeira vez o presidente Lula se referiu ao assunto. ‘Se ele está errado, ele paga. Agora, não posso impedir que ele trabalhe. Se quiser trabalhar que trabalhe e alguém diga se houve alguma coisa ilegal’, disse o presidente no programa ‘Roda Viva’, da TV Cultura.
Mas, afinal de contas, o que é a empresa de Fábio Luís? No que se refere à Gamecorp, é um negócio que pode ser definido como uma operação que nasceu sob a suspeita por ter contado com um empurrão providencial na largada – por conta da presença de um filho de presidente entre seus sócios. Mas que hoje, de fato, existe.
O filho de Lula é dono de 16,25% das ações da Gamecorp, produtora com 27 funcionários diretos e 52 prestadores de serviços que tem como negócio principal a produção de programas de TV – que exibe ao longo de 7 horas de programação na PlayTV, o antigo Canal 21. Mas que também tem um site de games e produz penduricalhos para celulares, como ringtones e papéis de parede.
A Gamecorp despertou suspeitas na largada porque contou com injeção inicial de R$ 5 milhões feita pela Telemar, que adquiriu 35% de suas ações quando ela ainda era uma um projeto mantido entre amigos e tinha a única vantagem de ser dona no Brasil da franquia do canal americano de games G4, uma potência na área.
A Telemar é uma empresa privada que tem em seu capital dinheiro público. Um de seus principais acionistas é o BNDES, dono de 25% das ações; outros 19,9% são de fundos de pensão, alguns de empresas públicas, como a Previ, do Banco do Brasil, e a Petros, da Petrobrás. A entrada da Telemar como sócia em um negócio onde só ela colocava dinheiro ainda teria sido disfarçada com uma labiríntica operação de debêntures.
Impulsionado pela ajuda da Telemar, o negócio do primeiro-filho começou comprando horários em canais de TV para exibir programas sobre jogos e clipes. Nesse ponto, a Telemar ajudou outra vez – e comprou R$ 5 milhões em cotas publicitárias. Os programas caíram nas graças de um nicho de telespectadores jovens. Meses depois, a Gamecorp fechou contrato com o Grupo Bandeirantes para ocupar a faixa mais nobre da antiga Rede 21. Administra uma programação que resulta em uma espécie de MTV mais voltada para o universo de games. Os seis programas feitos pela produtora de Fábio são uma mistura de videoclipes, animação imagens de games e entrevistas – embalados em jargões desse mundo estranho aos mais velhos, mas familiar aos jovens.
TV A CABO
À Bandeirantes cabe vender anúncios e distribuir a produção para 115 cidades em UHF e VHF e para outras 59 em canais a cabo – tudo amarrado em um contrato com cotas anuais de audiência e faturamento. Mas os sócios da Gamecorp pediram para participar da venda de anúncios. Querem aprender a tocar um departamento comercial – porque pretendem ter um canal a cabo. Um dos acionistas da empresa de Fábio, Fernando Bittar (irmão de outro sócio, Kalil, e filho de Jacó Bittar, ex-prefeito de Campinas e amigo do presidente Lula) trabalha no departamento comercial da Bandeirantes. De vez em quando, Fábio também é visto por lá.
O faturamento é dividido entre a produtora e a emissora. E só agora o negócio começa a dar esperanças de sobreviver longe do apoio da Telemar. ‘No começo, perdemos 40% de nossos anunciantes Mas era um movimento esperado, e por isso temos a previsão de faturar entre R$ 25 milhões e R$ 30 milhões no ano que vem’, explica Marcelo Meira, vice-presidente do Grupo Bandeirantes. Os anunciantes foram dar uma volta por causa do reposicionamento do canal. Mas também porque virou um mau negócio ser um dos patrocinadores do ‘canal do Lulinha’.