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Quinze anos depois, Plano Collor ainda gera disputas na Justiça

Quinze anos depois, Plano Collor ainda gera disputas na Justiça

Quinze anos não foram suficientes para apagar alguns dos incêndios provocados pelo Plano Collor. Até hoje, o confisco das aplicações financeiras promovido no dia seguinte à posse de Fernando Collor de Mello na Presidência da República está na pauta de disputas judiciais.

Quinze anos não foram suficientes para apagar alguns dos incêndios provocados pelo Plano Collor. Até hoje, o confisco das aplicações financeiras promovido no dia seguinte à posse de Fernando Collor de Mello na Presidência da República está na pauta de disputas judiciais.

Contribuintes questionam o reajuste da poupança bloqueada e advogados cobram na Justiça os honorários referentes a ações de liberação dos cruzeiros – criados para substituir o cruzado novo.

Na manhã do dia 16 de março de 1990, a então ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Melo, anunciou, tendo ao lado o presidente do Banco Central, Ibrahim Eris, a primeira grande ação do novo governo: para combater a hiperinflação, não bastaria congelar salários e preços. Estava decretado o confisco de contas bancárias e poupanças com saldo acima de Cr$ 50 mil, por 18 meses.

A idéia central era tirar dinheiro de circulação, “enxugando a liquidez” (expressão muito usada na época) e diminuindo a possibilidade de consumir. Com menos consumo (ou seja, menos demanda), os preços tendem a cair, e com eles a inflação.

A apresentação das medidas foi confusa; Zélia e Eris pareciam saber pouco do que estavam falando e deixaram no ar muitas dúvidas, agravadas pela hesitação retórica da ministra e pelo sotaque e português claudicante do executivo do BC, que tem nacionalidade turca.

O Brasil, que vivia um feriado bancário decretado para evitar uma corrida às agências, pareceu anestesiado; a mídia, de um modo geral, apoiou o plano, e somente nos dias seguintes algumas vozes contrárias começariam a se levantar contra as medidas, inclusive porque a possibilidade de confisco da poupança foi citada por Collor na campanha eleitoral – mas, de acordo com o eleito, quem o faria seria seu adversário, Luiz Inácio Lula da Silva, e não ele.

Outras medidas de impacto incluíam congelamento de salários e preços, o fim de autarquias e ministérios, demissão em massa de funcionários púbicos e a abertura da economia brasileira – um choque para o País, que até então garantia empregos por meio de reserva de mercado, como na indústria de informática.

Constatando a situação de “roleta russa” que o Plano Collor impunha (o então presidente, em sua metáfora predileta, dizia que tinha apenas uma bala para matar a inflação), a população – assim como a mídia – escolheu apoiar as medidas.

A inflação beirava, nos últimos meses da era Sarney, os 85%. As contas públicas não fechavam, e o déficit chegava a 8% do PIB. Fazia sentido, na época, acreditar que, para voltar a crescer, era preciso tomar medidas drásticas. Quaisquer que fossem.

No entanto, o chamado Plano Brasil Novo (nome divulgado pelo próprio Collor numa entrevista à TV, mas que jamais pegou) não iria obter sucesso na luta contra o dragão inflacionário.

Apesar de todo o otimismo após a liberação do primeiro índice (em abril, o IPCA foi de 15,5%, contra 82% no último mês de governo José Sarney), a hiperinflação não foi domada. A sensação de sucesso não durou mais do que três meses.

No segundo semestre, o índice voltou a beirar os 20%, e já se admitia o fracasso das medidas, que passaram a ser consideradas “truculentas”. Em janeiro de 1991, viria o Plano Collor 2.

Antes mesmo do fim dos 18 meses, o confisco já era praticamente lenda. Quem tentou entrar na Justiça para reaver o dinheiro, conseguiu – já que o Supremo Tribunal Federal deixou a responsabilidade nas mãos dos juízes de primeira instância.

Filas de advogados brotavam em todos os tribunais. Os cruzeiros conseguiram a liberdade até que o STF resolveu julgar a ação direta de inconstitucionalidade do confisco, já 15 meses depois da adoção da medida. Mesmo com o bloqueio restabelecido, já era tarde. A inflação já estava descontrolada. E foi só uma questão de tempo até o estranho termo “impeachment” (por outros motivos), entrar no vocabulário nacional.

Os advogados, por sua vez, lucraram com a situação, cobrando até 10% do valor recuperado pelo cidadão no desbloqueio. “Não faltava trabalho para os colegas recém-formados”, disse o procurador Oscar Vilhena, em entrevista ao jornal Valor. Até hoje a cobrança de honorários atrasados é motivo de ações.

Poupança

Outra seqüela do Plano Collor está ligada ao índice de reajuste da poupança de março de 1990, primeiro mês após a adoção das medidas antiinflacionárias.

As cadernetas com aniversário entre os dias 14 e 28 daquele mês deveriam ter sido corrigidas pelo índice BNTf, que fora de 41,28%, apesar de os contratos de poupança determinarem rendimento pelo IPC, de 84,32%. Os bancos, no entanto, sob ordem do Banco Central, aplicaram apenas 4%.

O STF já decidiu que cabe ao BC cobrir a diferença, e que os bancos particulares não têm responsabilidade no ocorrido. Mas, como o pagamento pelo BC depende de dotação orçamentária, as chances de reaver o dinheiro são praticamente nulas. Até mesmo o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), que tem ação coletiva pendente no STJ, admite que a causa é das mais difíceis.

O único tiro de Collor acertou o alvo errado. Em seu primeiro ano de governo, o crescimento econômico, uma de suas principais bandeiras durante a campanha, simplesmente não aconteceu. Na verdade, o que se viu foi um encolhimento de 4,4% no PIB.

A inflação continuaria como o principal problema da economia do País até 1994, quando foi adotado o conceito de âncora cambial, base do Plano Real, durante o governo do vice collorido, Itamar Franco.

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