Uma ação cautelar impetrada na Justiça ontem pediu a indisponibilidade e o bloqueio do jato Legacy, que se chocou com o Boeing 737-800 da Gol no norte do Mato Grosso, há oito dias, resultando na morte de 154 pessoas. O autor da ação, Bernardo Álvares da Silva Campos, é marido de Patrícia Moreira, que morreu no acidente. A intenção, segundo o advogado Marcelo Moura, que representa Bernardo, é garantir a permanência da aeronave no Brasil para uma eventual indenização das famílias. Mas, numa justificativa considerada pela família da vítima absurda, a juíza da 3ª Vara Cível, Ana Maria Cantarino, alegou precisar da certidão de óbito de Patrícia Moreira, cujo corpo ainda não foi encontrado pelos militares que trabalham no resgate, no norte do Mato Grosso, para conceder uma liminar.
O advogado anunciou que vai recorrer ao Tribunal de Justiça do Distrito Federal para tentar obter uma liminar. A intenção, segundo Bernardo Campos, é garantir o acesso a todas as informações sobre as investigações, como o depoimento do pilotos que guiavam o jato particular, para, em seguida, propor uma ação penal. “Minha motivação não é financeira. O que eu quero é informação e punição para os culpados, caso isso fique provado”, explica Bernardo. “Como os pilotos têm cidadania americana, a aeronave é americana, sabemos que há pressão política, mas vamos garantir que esse jato não seja liberado, que não haja impunidade com relação a esse crime.”
Se os indícios de que houve negligência por parte dos pilotos do Legacy, tese até agora mais provável, forem confirmados, Bernardo entrará com uma ação penal sustentando que houve homicídio doloso. Ou seja, por essa tese, os pilotos, se realmente desligaram o transponder — equipamento que permite rastrear localização e altura no radar —, assumiam a responsabilidade por um eventual acidente. Bernardo, que não tem participado das reuniões organizadas nos hotéis da cidade onde estão parentes de outras vítimas, entrou com a ação individualmente, mas destaca que outras famílias podem fazer o mesmo.
Asa foi rasgada
Claudio Dantas Sequeira
Da equipe do Correio
Oficiais da Força Aérea Brasileira (FAB), que investigam o acidente com o vôo 1907 da Gol, localizaram ontem as asas do Boeing 737-800 a mais de 40Kkm do local onde estão os principais destroços da aeronave. Um militar de alta patente do Ministério da Defesa revelou ao Correio que a asa esquerda teria sido a primeira peça a se desprender do avião. “Isso indica que a winglet (aleta vertical do fim da asa) do Legacy cortou a asa do Boeing como uma faca afiada”, avaliou. A versão foi confirmada por mais dois oficiais da FAB ligados à Comissão de Investigação e explicaria por que o avião se desmanchou ainda no ar. Eles consideram ainda a possibilidade de o estabilizador do leme traseiro ter sido arrancado no choque.
“Sem o comando de vôo e as asas, o avião despencou dos 37 mil pés em queda livre. É possível que a despressurização tenha feito os passageiros desmaiarem antes da colisão em terra”, avalia um ex-investigador da FAB, que perdeu um amigo na tragédia. As asas do Boeing foram identificadas por helicópteros depois que uma aeronave radar R-99 fez uma ampla varredura dos arredores da Serra do Cachimbo. Os principais destroços, a cabine dos pilotos e dos passageiros estão concentradas num raio de 20km.
Segundo a Aeronáutica, 110 militares permanecem na área da Fazenda Jarinã, sendo que cerca de 65 militares da FAB, 20 do Exército e peritos do Instituto Médico Legal trabalham na área dos destroços. Outros 150 militares estão no Campo de Provas Brigadeiro Velloso. Apesar das queixas dos familiares das vítimas sobre a falta de informações, o presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, ressaltou ontem a necessidade de manter as investigações sob sigilo. “É compreensível a ansiedade, mas essa investigação dever ser feita em sigilo”, disse. Ele defendeu que qualquer conclusão sobre a queda do Boeing só pode ser tirada após a contextualização de todas as informações retiradas das caixas-pretas.
Para reconstituir o acidente, a FAB leva em consideração os chamados “fatores contribuintes” e busca do “ponto de reversibilidade” — o limite a partir do qual o acidente já não poderia mais ser evitado. O fator operacional diz respeito às informações técnicas, como condições meteorológicas, comunicações por rádio e radar. Também há o fator fisiológico e psicológico que considera as condições de saúde e o histórico do comportamento da tripulação.