seu conteúdo no nosso portal

O juiz e a sociedade

O juiz e a sociedade

Ao chamar a atenção de seus colegas na reunião de quinta-feira sobre a provável reação das ruas a decisões do Supremo Tribunal Federal(STF) que indiquem retrocesso no sistema jurídico, o Ministro Marco Aurélio Mello levantou uma questão que é sempre debatida entre os juizes: até que ponto a sociedade deve ter repercussão nas decisões dos tribunais, especialmente do Supremo, última instância da Justiça?

Marco Aurélio lamentou que o tribunal que sinalizara “uma correção de rumos visando a um Brasil melhor para nossos bisnetos”, estivesse “a um passo de desmerecer a confiança que nos foi confiada” Irônico, disse que já não falava em esperança de dias melhores para os filhos e netos.

O comentário suscitou declaração do ministro Luís Roberto Barroso que não se coaduna com o que afirmara em seu discurso de posse no STF. Nele, Barroso disse considerar um “”bom símbolo” a juventude e o povo nas ruas cobrando melhorias para o país. Definiu o movimento social “como algo positivo (…) essa manifestação pacífica, energia criativa e construtiva que está vindo das ruas, da sociedade brasileira, certamente fará muito bem a esta população”

E o que disse Barroso na quinta-feira? “Não julgamos para a multidão, julgamos pessoas. Sou um juiz constitucional, me pauto pelo que acho correto (…). Se a decisão for contra a opinião pública é porque este é o papel de uma Corte constitucional”

O tema já havia sido abordado pelo presidente do STF, Joaquim Barbosa, em sua posse, quando afirmou que os magistrados devem levar em conta as expectativas da sociedade em relação à Justiça e que não há mais espaço para o juiz “isolado”

Barroso certamente não ignora o que fez o povo sair às ruas para pedir o fim da corrupção, que é o cerne do que se discute nesse momento. Portanto, quando diz não estar à cata de “manchetes favoráveis” mas sim de fazer o que acha certo, está desprezando, com visão personalista, a opinião pública e a imprensa, que a expressa em regimes democráticos. Não é um bom sinal, nem mesmo combina com a imagem de humanista com que sempre foi reconhecido.

E, sobretudo, vai de encontro a textos dele, como o que se segue, de 2008, sobre “a opinião pública”

“O poder de juizes e tribunais, como todo poder político em um Estado democrático, é representativo. Vale dizer: é exercido em nome do povo e deve contas à sociedade. Embora tal assertiva seja razoavelmente óbvia, do ponto de vista da teoria democrática, a verdade é que a percepção concreta desse fenômeno é relativamente recente. O distanciamento em relação ao cidadão comum, à opinião pública e aos meios de comunicação fazia parte da auto compreensão do Judiciário e era tido como virtude. O quadro, hoje, é totalmente diverso”

“De fato, a legitimidade democrática do Judiciário, sobretudo quando interpreta a Constituição, está associada à sua capacidade de corresponder ao sentimento social. Cortes constitucionais, como os tribunais em geral, não podem prescindir do respeito, da adesão e da aceitação da sociedade. A autoridade para fazer valer a Constituição, como qualquer autoridade que não repouse na força, depende da confiança dos cidadãos. Se os tribunais interpretarem a Constituição em termos que divirjam significativamente do sentimento social, a sociedade encontrará mecanismos de transmitir suas objeções e, no limite, resistirá ao cumprimento da decisão”

“A relação entre órgãos judiciais e a opinião pública envolve complexidades e sutilezas. De um lado, a atuação dos tribunais, em geral – e no controle de cons-titudonalidade das leis, em particular -, é reconhecida (…) como um mecanismo relevante de contenção das paixões passageiras da vontade popular. De outra parte, a ingerência doJudiciário, em linha oposta à das maiorias políticas, enfrenta, desde sempre, questionamentos quanto à sua legitimidade democrática” “Nesse ambiente, é possível estabelecer uma correlação entre Judiciário e opinião pública e afirmar que, quando haja desencontro de posições, a tendência é no sentido de o Judiciário se alinhar ao sentimento social”(…)

Os pontos chave

O ministro Luís Roberto Barroso certamente não ignora o que fez o povo sair às ruas para pedir o fim da corrupção, que é o cerne do que se discute nesse momento.

“De fato, a legitimidade democrática do Judiciário, sobretudo quando interpreta a Constituição, está associada à sua capacidade de corresponderão sentimento social” escreveu Barroso em 2008

“Nesse ambiente, é possível estabelecer uma correlação entreJudiciário e opinião pública e afirmar que, quando haja desencontro de posições, a tendência é no sentido de o Judiciário se alinhar ao sentimento social” (…)

Compartihe

OUTRAS NOTÍCIAS

Sócio retirante desligado antes do Código Civil de 2002 não se submete ao prazo de dois anos
TJMT mantém multa aplicada a posto por falta de informação sobre preços
Borracheiro receberá adicional de insalubridade por estresse térmico